
Palestra de:
Pe. José Pedro Teixeira de Jesus
Coordenador Diocesano de pastoral
Diocese de Santo André
I – A PESSOA DE PAULO
No próximo mês de junho, estaremos abrindo o ano jubilar do nascimento de São Paulo, aquele que, dentre os personagens do NT, incluindo Jesus, é o de que temos mais informações e o que se deixa mais conhecer entre todos .
As informações que temos sobre Paulo, estão contidas no Novo Testamento . Embora sejam muitas, elas não nos permitem apresentar uma biografia completa, pois são muitas as brechas que permanecem.
Paulus. Nome patrício romano assumido por Saulo de Tarso é o nome pelo qual ele é conhecido; o uso de um nome grego ou latino, adicionado ou em lugar de um nome judaico, era comum entre os judeus da Diáspora.
Paulo é um judeu da Diáspora , da cidade de Tarso, que, devido a seu contato com o mundo helênico, adotou para si este nome que corresponde ao de Saulo no mundo dos hebreus. Não temos a data precisa do seu nascimento; no entanto, quando escreve a Filêmon (v.9), na segunda metade dos anos 50, diz-se velho. Pode-se estimar que tenha nascido entre os anos 5 e 15 d. C .
Quanto à sua família, sabemos que Paulo é hebreu, filho de hebreus, da Tribo de Benjamim, e é um fariseu que se distingue por um zeloso apego às tradições religiosas e éticas do judaísmo. Ele próprio atesta a sua fidelidade ao judaísmo . É preciso afirmar, no entanto, que, no tempo de Paulo, os fariseus não eram tidos como os perseguidores da Igreja ou inimigos de Jesus como nos apresentam os evangelhos, sobretudo o de São Mateus, mas, sim, eram admirados por todos por serem irrepreensíveis na observância das leis. O sentimento antifarisaico dar-se-á após a queda do Templo de Jerusalém pelos anos 70.
Foi esta determinação diante das leis que levou Paulo a perseguir a Igreja de Jesus Cristo, pois, na sua visão, os cristãos eram infiéis a Deus. Embora não possamos justificar a prática de Paulo em perseguir as comunidades, no entanto, o seu zelo ajuda-nos a compreender o porquê dessa atitude. Não se trata de ver em Paulo uma pessoa má, e, sim, alguém convicto de que Deus necessitava ser defendido de qualquer maneira daqueles que tentassem confundir as pessoas ou profanar o nome de Deus. Como poderia ser Jesus o Messias, se ele morreu na cruz? Não existia castigo maior do que morrer crucificado. Como um maldito de Deus poderia ser o Messias?
A experiência de Damasco foi decisiva em determinar a direção de seu pensamento. A estrada de Damasco sugere o deserto, e, neste sentido, Paulo acabou realizando a mesma experiência que Moisés, Elias e Jesus. Diante do deserto fazer a sua opção fundamental em favor de Deus e conseqüentemente da vida.
Não se pode conceber uma conversão abrupta do Saulo para Paulo, nem tão pouco imaginar alguém que, de um instante para outro, mudou os seus valores e conceitos. De fato, todo o processo sofrido por Paulo pode ser medido no decorrer da sua vida e a partir do seu trabalho missionário .
Enquanto cidadão romano, Paulo abre mão do salário que lhe é de direito para viver a partir do seu próprio trabalho . Enquanto fariseu, ele abre mão dos privilégios advindos da confiança e da admiração que o sinédrio depositava nos fariseus em troca da fidelidade ao anúncio de Jesus Cristo. Paulo abre mão do conforto de um endereço fixo pela constante mudança de cidade, em vista de anunciar o evangelho. Paulo fará inclusive a experiência do abandono: enquanto romano, pelos romanos na medida em que anuncia Jesus como o Nosso Senhor . Enquanto fariseu, pelos fariseus na medida em que dará menos importância à lei em vista do amor de Jesus Cristo e do sangue da sua cruz . Enquanto cristão, pelos próprios cristãos que o aceitarão na medida em que deverá pregar o evangelho somente para os gentios.
Nenhuma dessas realidades vai abater Paulo. Muito pelo contrário, inúmeras vezes Paulo irá mencionar o seu passado , mas fará questão de afirmar que agira daquela maneira por uma questão de zelo .
De perseguidor, Paulo torna-se perseguido, e isso devido ao seu trabalho missionário. Não se pode afirmar, no entanto, que Paulo seja o único missionário. Nessa época temos em plena atuação Barnabé, Pedro e outros. Já no relato da estrada de Damasco o texto nos remete a um tal de Ananias. O próprio Paulo afirma ter recebido a doutrina que agora transmite .
A novidade de Paulo foi a sua ruptura radical com a religião e com a cultura judaica, a ruptura com os privilégios romanos em vista do Evangelho. Ele quis fazer conhecida a mensagem de Jesus, quis torná-la uma mensagem universal.
Um outro aspecto a ser ressaltado é de o Paulo como pastor de almas. Ele tinha como objetivo criar comunidades cristãs nos centros urbanos. Tratava-se de comunidades domésticas, que se reuniam nas casas dos fiéis, microcomunidades, pois se reuniam na sala das casas das famílias .
Certamente Paulo é ainda hoje o maior exemplo de missionário urbano. Animador e organizador das comunidades, procurava manter o vínculo através das cartas que escrevia: verdadeiros tratados sobre a novidade Jesus Cristo. Paulo não se furta em continuar caminhando com as comunidades em busca da fidelidade. Sofria com as Igrejas, alegrava-se com elas, apresentando-se como um verdadeiro pastor que tratava as Igrejas com amor e dedicação.
A sua fidelidade a Jesus Cristo e o seu compromisso com as comunidades permitem-nos tê-lo como verdadeiro modelo de cristão a ser seguido, bem como, uma verdadeira ilustração para nós, quando, hoje, estamos sendo convocados, através do documento de Aparecida, a ser discípulos missionários de Jesus Cristo.
II – A CRISTOLOGIA PAULINA
Jesus Cristo não é um princípio externo de lei ou de doutrina, mas, sim, uma vida e um estado, no qual e somente no qual é possível a plenitude da graça e da virtude cristãs.
Tal glorificação de Cristo é um tema de importância primordial nas epístolas. Com sua paixão, Jesus adquire o nome que é adorado .
Em Cristo Jesus concretizam-se os seguintes elementos: o amor de Deus , a graça de Deus e as riquezas espirituais , a justiça de Deus que o cristão obtém , a fé e o amor , a salvação .
III – A ESCATOLOGIA EM PAULO
Um outro tema muito caro a Paulo certamente é a escatologia. Afinal, diante da estrada de Damasco, Paulo já não consegue determinar qual o seu ponto de chegada, qual é, de fato, o ponto final de todo o seu empreendimento. É por conta disso que ele procura, na coerência da sua opção, um sentido de fé para as suas atitudes.
Paulo conhece muito bem o que significa a perseguição, e, tendo consciência da vulnerabilidade propiciada por ela, procura manter, ao seu tempo, os discípulos de Jesus Cristo e as novas Igrejas, preparados para esse momento.
É a partir desse contexto que vamos ler a carta destinada à comunidade de Tessalônica.
Podemos detectar a seguinte estrutura da 1ª Carta aos Tessalonicenses:
1,1 – Saudação;
1,1-2,13 – Refutação das calúnias dos judeus:
1,2-10 - a obra do espírito em Tessalônica;
2,1-12 – a pureza de intenção de Paulo na pregação.
2,9 – Ainda vos lembrais, meus irmãos, dos nossos trabalhos (kópon = trabalho pesado) e fadigas (mócton = em decorrência do trabalho árduo). Trabalhamos (hergazómenoi = trabalhar duramente) de noite e de dia, para não sermos pesados (hepibarêssai = no sentido de carregar peso) a nenhum de vós. Foi assim que pregamos o evangelho de Deus.
2,13-19 – A perseguição pelos judeus.
3,1-13 – A missão de Timóteo.
4,1-5,22 – exortações:
4,3-8 – amor e castidade;
4,9-10 – amor fraterno;
4,10-12 – trabalhos;
4,13-18 – a certeza da ressurreição;
5,1-11 – o juízo, que deve ser esperado com fé, esperança e amor;
5,12-22 – Conselhos para a vida comunitária.
5,23-28 – Votos e saudações.
Da estrutura apresentada acima, gostaria de me deter em alguns temas teológicos desenvolvidos nesta carta:
1 - Evangelho / pregação
1Ts 1,4-6 (3 2-3) = (A consciência do povo vem da Palavra de Deus, do Evangelho).
1Ts 2,1-13 = A raiz da pregação está nos momentos de dificuldades em que o povo precisa da presença e do apoio de Deus. Deus confia-nos a sua presença. O evangelho nasce desta carta.
2 - Irmãos / solidariedade
1Ts 1,1 (3, 11.13) = (Kyrios – título do imperador. Jesus é chamado de Kyrios e, portanto, ninguém precisa temer. Este Kyrios é justo e verdadeiro. A sua vinda (parusia) é justiça e alegria).
1Ts 1,4. 9-10 = Irmãos eleitos / Consciência histórica. (Eles sabem o que está acontecendo).
1Ts 4,6 = O Deus vingador (Goel). Defende, protege e vê aquele que recebe a justiça.
1Ts 5,24 = Deus é fiel no agir. Isto é muito importante para a comunidade perseguida.
3 – Parusia / poder / ressurreição
1Ts 4 13-5,11 = Parusia lembra o imperador. Paulo não está falando deste, mas, sim, do Deus justo que luta em favor do povo. (Dn 7 – o justo não morrerá). Deus tem o poder de visitação e de vindicação (esta questão é própria quando se trata da perseguição).
1Ts 5,8 = O texto refere-se ao combate cósmico.
1Ts 4,14 = O texto refere-se à ressurreição – insurreição.
4 – Discernimento
1Ts 4,1-3 = Qual é a vontade de Deus? A nossa santificação.
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